<i>Last Christmas (*)</i>
Nos finais de ano o que mais se ouve, se escreve e se lê são balanços. E todos os anos se descobre que os 365 dias que nos envelheceram foram «os mais», nisto ou naquilo, pela positiva ou pela negativa, que é preciso não dizer nunca que o ano que findou foi, apenas, mais um ano, com vitórias, derrotas, empates, prolongamentos, erros de arbitragem, como sempre acontece num jogo qualquer, não sendo o jogo da vida excepção.
É claro que não deveremos deixar passar em claro que, em 2016, Portugal foi campeão europeu de futebol nos crescidos, coisa rara e nunca vista a não ser em miúdos; que o Benfica ganhou o campeonato outra vez; que Trump venceu as eleições nos EUA; que Dylan foi Prémio Nobel por escrever cantigas; que o Reino Unido (?) saiu da União Europeia; que o Daesh persiste em ser uma aberração assassina; que os problemas do clima são uma equação que dificilmente se resolve se outros «valore$» mai$ alto$ se levantarem e coisas que tais, apenas diferentes nos nomes ou nos protagonistas, o futuro dirá se a diferença nos afecta e como, «p'ra melhor está bem está bem, p'ra pior já basta assim».
E lembramo-nos dos que partiram, deixando, de uma maneira menor ou maior, a sua marca depois do adeus. No caso dos cantores cantautores e músicos o ano foi pródigo na ceifa: Bowie, Prince, Gato Barbieri, Cauby Peixoto, Leonard Cohen e, ao cair do pano, George Michael. O comum dos mortais lembrar-se-á de todos, ou de quase todos, embora, por vezes, a recordação que nos fica seja a que os media nos impingiram, tantas e tantas vezes parcial, clubista, maquilhada.
David Bowie foi um camaleão, mudou de rumo vezes sem conta e, dizem, tinha muito talento (e muitíssimo dinheiro). Dizem, quero dizer: alguns, nem todos. Adiante. Prince foi um grande artista e todos sabemos entoar Purple Rain. Barbieri era um óptimo saxofonista que passou pelo free jazz e virou para um jazz de raízes musicais latinas. Cauby Peixoto teve uma carreira feliz no Brasil. Leonard Cohen foi uma grande poeta-cantor-compositor.
Dito isto, que é o que dirá muita gente, muita coisa ficará por dizer. De George Michael, por exemplo, o que nos surge logo é aquele dueto antigo que entornava pop'amoroso no nosso Natal, já bem servido de cantigas e sem precisão de uma estopada daquelas (nem sempre o que é diferente é melhor. Antes Rudolph que Wham...). Depois ficam as recordações de um percurso de vida(s) conturbado, de uma postura mais exigente perante as canções, de lutas inglórias contra as editoras, de muitos discos vendidos e de variadíssimas estórias de revistas mexeriqueiras, como é uso no mundo das «estrelas», por menos ou mais cadentes que sejam.
Porém, eu, que apreciava a voz e algumas canções suas sem nunca ter sido propriamente presidente do clube dos seus fãs, vou lembrar-me de George Michael (que teve, agora sim, o seu Last Christmas) com o respeito que nutro por qualquer trabalhador que leva a sério o seu trabalho (e ele levava-o), recordando meia dúzia de cantigas e mais «uma coisinha»: Michael foi, frontalmente, contra as políticas de Margaret Tatcher e, mais tarde, contra as de Tony Blair, nomeadamente no que dizia respeito à guerra no Iraque. E essas são razões mais do que suficientes para subir uns degraus na minha consideração.
Vale a pena dizer isto agora. A tempo ainda de focarmos melhor a imagem parcialmente desfocada que nos deram dele.
(*) Último Natal